Realizada há 87 anos na cidade de São Paulo, a Corrida de São
Silvestre, pode passar por uma significativa mudança em seu percurso
neste ano, tendo sua chegada transferida da Avenida Paulista para a
região do Parque do Ibirapuera, obrigando os atletas a seguir pela
Avenida Brigadeiro Luís Antônio, em trecho de descida. A alegação das
entidades envolvidas na organização da prova é a suposta falta de
estrutura da avenida para a dispersão dos atletas, ao final da corrida. A
dificuldade estaria na realização, poucas horas depois, do evento de
Réveillon, que tem ocorrido na mesma Avenida Paulista em anos recentes,
alguns quarteirões adiante do ponto de chegada.
A decisão de mudar o percurso, alterando uma das maiores tradições do
evento, foi anunciada no início de setembro, como uma espécie de
continuação de outra polêmica, ocorrida na edição de 2010 da São
Silvestre. Na ocasião, a organização da prova entregou as medalhas de
participação no kit do atleta, que habitualmente continha apenas o
número de peito, o chip e a camiseta da prova. A razão para esta
distribuição inusitada de medalhas antes da competição estava justamente
na dispersão, pretendendo maior agilidade no escoamento de atletas,
para não conflitar com o público do Réveillon.
Embora nem a empresa que organiza a prova, nem a Fundação Cásper
Líbero (criadora do evento), nem a emissora que detém os direitos de
transmissão para TV, nem a Prefeitura de São Paulo tenham se manifestado
publicamente sobre a polêmica gerada com a mudança do trajeto,
especialistas de vários segmentos contestam a alegação de que é
impossível fazer a dispersão de 25 mil atletas sem comprometer o evento
que acontece horas depois.
É fácil reverter o nó da dispersão
Armando Santos, diretor executivo da Corpore (Corredores Paulistas
Reunidos, entidade que organiza em torno de 25 corridas de rua por ano)
questiona a alegação da organização. “É uma equação extremamente
simples: área de dispersão e gente. Se, na chegada, não há largura
suficiente para essa dispersão, não há problema. Basta fazer um corredor
vertical com grades até um lugar mais largo. A Avenida Paulista permite
isso, mas também é possível encaminhar a dispersão para as Alamedas
Campinas e São Carlos do Pinhal, que já ficam interditadas, por conta do
bloqueio da Avenida Brigadeiro Luís Antônio”, comenta.
Ele acrescenta que a maior agilidade na dispersão pode ser obtida com
o aumento do número de pessoas recebendo os atletas, entregando água,
isotônico e a medalha. Esta medida, certamente, aumenta o custo do
evento. “Talvez esteja aí o problema”, aponta Armando, trazendo exemplos
de provas com número maior de participantes que lidam de forma
eficiente com o nó da dispersão. “Na Maratona de Nova York, há quase um
quilômetro de dispersão, com voluntários impedindo que atletas parem
nesse trecho. A Maratona de Berlim, que reúne 40 mil pessoas, não conta
com uma área de dispersão gigante, mas tem muita gente atendendo e
agilizando a chegada.” O fato de que estas provas são maratonas (42 km) e
não uma corrida de 15 km não pode servir de justificativa para
inviabilizar a chegada na Paulista. A própria Corpore organizou provas
como a Nike 10K, com 25 mil atletas, e um percurso menor que o da São
Silvestre, sem registrar qualquer problema na chegada. “Porque
controlamos a dispersão. Espaço x gente, eis a equação. Na Paulista, o
espaço não é crítico e, mesmo que fosse, bastariam corredores verticais
de grades para escoar a chegada”, acrescenta Armando. “Uma prova como a
São Silvestre precisa de uma área de dispersão de uns 100 metros, que me
parece fácil de ter, com cerca de quinze passagens para entrega de
medalha e lanche, água etc. Depois da premiação, que acontece logo,
poderia ser usada a outra pista da Paulista para a dispersão também. De
um modo geral, não faz nenhum sentido dizer que não dá para
compatibilizar São Silvestre e Réveillon.”
Pior para o ar de São Paulo
Realizar largada e chegada de uma prova em locais distintos é tarefa
que requer uma logística diferenciada. João Traven, da Spiridon Eventos,
comenta alguns detalhes técnicos utilizados na Maratona do Rio de
Janeiro e na Corrida das Pontes, também no Rio, que seguem este modelo.
Em eventos como estes, o guarda-volumes é montado no interior de
ônibus, que se deslocam da largada para a chegada antes do início da
corrida. “Geralmente, usamos um percurso alternativo ao da prova para
evitar mais transtornos”, comenta o dirigente. “A ideia é que os ônibus
estejam na chegada antes dos primeiros colocados, mas na Corrida das
Pontes tivemos alguns problemas e eles chegaram depois”, completa.
João conta ainda que se calcula um ônibus para 800 atletas, o que
implicaria em 31 veículos disponibilizados para a São Silvestre, já que
esse ano os organizadores abriram 25 mil inscrições. Dr. Paulo Saldiva,
médico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
pesquisador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard,
especialista em poluição atmosférica, critica o novo modelo. “Para levar
todos os concluintes da São Silvestre morro acima (do Ibirapuera de
volta à Paulista), nós vamos dar uma mensagem equivocada ao espírito do
que é a mobilidade ativa”, comenta Dr. Paulo, que utiliza a bicicleta em
deslocamentos urbanos e é corredor.
“Quando incentivamos caminhada, corrida e ciclismo como uma forma
mais saudável e mais sustentável de movimentação, é contraditório,
depois de uma festa que é um marco do esporte e da saúde, colocar um
monte de ônibus para levar toda essa gente de volta. Eu corro a São
Silvestre, corri no ano passado e é uma pena você acabar a festa e ter
que sair de um lugar, onde você poderia sair de metrô, e ter que ir de
ônibus”, analisa o médico.
Maior risco de lesões
Se o deslocamento da chegada para a região do Ibirapuera representa
um dano ao ar de São Paulo, um risco praticamente igual ronda os atletas
que se aventurarem a descer a Brigadeiro. Dr. Henrique Cabrita, médico
ortopedista, diretor do Instituto Vita e maratonista, analisa o
potencial aumentado de lesões graças ao novo percurso. “A descida da
Brigadeiro, em termos de inclinação, é mais íngreme do que a subida.
Estudei relatos de lesões esportivas e qualquer tipo de prova que seja
em descida representa uma sobrecarga muito grande do aparelho extensor
do joelho, ou seja, na parte da frente, da rótula, da patela, do tendão
patelar. E uma carga muito maior na região dos calcanhares, também.
Tenho levantado artigos sobre lesões em corridas de longa distância e a
incidência de lesões em corridas tipo ‘downhill’ (declive) é, em média,
50% maior do que em provas sem desníveis ou com final em ‘uphill’
(aclive).”, informa o ortopedista. “E, se pensarmos que estamos no final
de uma prova de 15 km, em que boa parte dos esportistas está
completando uma corrida pela primeira vez, é muito provável que vários
desses atletas sintam-se encorajados a acelrar o ritmo na descida,
aumentando o potencial para lesões ortopédicas no joelho e no
calcanhar.”
Como corredor experiente, que já participou de várias edições da São
Silvestre, Dr. Henrique testemunha que “a maior emoção é quando a gente
chega, faz toda aquela subida da Brigadeiro e vira à direita, na
Paulista, tendo aquela visão da chegada, o pessoal incentivando a fazer
os últimos metros depois daquela grande subida. Como maratonista, como
corredor, sem esta emoção final é uma grande perda. Chegar no Parque do
Ibirapuera, como já chegam tantas outras provas, é banalizar a São
Silvestre.”
No ano passado, após a polêmica da entrega de medalhas antes da prova
– o que foi considerado uma desvalorização do esforço de quem, de fato,
completou a São Silvestre – a organização aventou a possibilidade de
solicitar nova localização para o palco do Réveillon. O diretor geral da
prova e superintendente do portal Gazeta Esportiva.net, Júlio Deodoro,
comentou, depois da 86ª edição, que uma alternativa seria deslocar o
palco do Réveillon para duas quadras adiante. “Melhoraria para o
Réveillon e para a São Silvestre. Poderíamos usar as duas pistas da
Paulista na largada e na dispersão, depois da chegada. Nessas condições,
seria possível entregar as medalhas no final da prova”, declarou Júlio
em dezembro de 2010.
Esta alternativa, no entanto, parece ter sido descartada pela
organização, que preferiu impor a mudança do percurso, sem considerar a
tradição do evento, o prejuízo ao ar de São Paulo, a conveniência e a
integridade física dos atletas e nem do público, que passa a ter de
escolher entre assistir à largada ou à chegada da São Silvestre.
Nota da Redação: Este conteúdo foi produzido
em conjunto pelo Grupo São Silvestre na Paulista, formado por
profissionais de várias áreas, todos corredores de rua, empenhados em
buscar o diálogo com as entidades organizadoras da Corrida de São
Silvestre. Apesar de reiteradas tentativas, nem a organização da prova,
nem a Fundação Cásper Líbero, nem a Prefeitura de São Paulo concordaram
em dialogar com o grupo sobre o tema. A intenção de buscar a melhor
solução para o problema, da nossa parte, continua presente.
Alessandra Alves – Jornalista
Alexandre Koda – Jornalista
Ana Paula Alfano – Jornalista
Bruno Vicari – Jornalista
Cássio Politi – Jornalista
Erich Beting – Jornalistam
Fernanda Paradizo – Jornalista
Harry Thomas Jr. – Jornalista
Henrique Cabrita – Médico
Iberê Castro Dias – Maratonista
Martha Dallari – Vice-presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC)
Nelson Evêncio – Presidente da ATC
Ricardo Capriotti – Jornalista
Roberta Palma – jornalista
Sérgio Xavier – Jornalista
Simone Manocchio – Jornalista
Vicent Sobrinho – Jornalista
Wagner Araújo – Jornalista
Alessandra Alves – Jornalista
Alexandre Koda – Jornalista
Ana Paula Alfano – Jornalista
Bruno Vicari – Jornalista
Cássio Politi – Jornalista
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Fernanda Paradizo – Jornalista
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Henrique Cabrita – Médico
Iberê Castro Dias – Maratonista
Martha Dallari – Vice-presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo (ATC)
Nelson Evêncio – Presidente da ATC
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Simone Manocchio – Jornalista
Vicent Sobrinho – Jornalista
Wagner Araújo – Jornalista
crédito foto: divulgação ZDL/S. Shibuya