UM DOS GRANDES EMPECILHOS da prática da corrida é o surgimento de lesões. Ela pode aparecer de forma traumática, como uma torção, por exemplo, ou na forma crônica.
Esta última ocorre quando ultrapassamos o limite permitido pelo organismo repetidamente, sem o devido tempo de recuperação. Este limite tem que ser ultrapassado para evoluirmos, para aumentar nossa capacidade de resistência ou de velocidade. Além disso, é absolutamente individual. Mas a repetibilidade da busca de melhores performances, sem o devido tempo de recuperação, é que origina a lesão.
Este limite pode ser ultrapassado de algumas formas: através do aumento abrupto da quantidade de quilômetros rodados semanalmente, o que normalmente chamamos de volume de treino, assim como pelo aumento também abrupto da velocidade ou ritmo da corrida, o que chamamos de intensidade de treino. Um estudo da Universidade de Sacramento (EUA) baseia-se em uma curva de fadiga para exemplificar tal fato.
Nós temos um limiar para a ocorrência da lesão e este limiar normalmente é deslocado para cima e para a direita quando se realiza o treinamento de uma forma adequada. Mas qualquer possibilidade de falhas no treinamento pode fazer com que cada treino sempre esteja acima do que se denomina de limiar de lesão. A freqüência com que isso ocorre é que determinará se ela irá surgir ou não. Observem que quanto mais alto o nível de estresse (intensidade do treino) menor deve ser a freqüência deste treino (volume do treino). O inverso também é verdadeiro. Segundo a mesma pesquisa, cerca de 60% das lesões surgem por conta de erros de treinamento.
Além destes fatores, outra fonte de possíveis causa de lesões são fatores de origem anatômica como a existência de pé plano (o mesmo que pé chato), joelhos com orientação em “x” (o mesmo que joelhos em genuvalgo) e a diferença no comprimento entre um membro inferior e outro. Tudo isso pode acelerar o processo de ocorrência de uma lesão. Fazendo com que seja fundamental uma avaliação ortopédica, que um bom profissional de educação física é capaz de fazê-lo.
Existe mais uma classe de fatores, que influem na ocorrência de lesões: os biomecânicos, relacionados com os movimentos que o corpo realiza na hora da atividade. No caso da corrida, estes fatores a serem levantados são a força com que tocamos (momento denominado de impacto ou força de reação do solo) e propulsionamos o solo durante a corrida, e principalmente, a velocidade com que este impacto ocorre, além da magnitude e distribuição da pressão que o pé faz no chão.
E, finalmente, existem fatores que são de origem externa, ou seja, não são originados diretamente do organismo, mas seu controle auxilia muito na prevenção de lesões. Entre eles, o tipo de calçado utilizado e as alterações bruscas de pisos.
Com tudo aqui demonstrado percebe-se que a lesão, em nenhum momento, vai ocorrer por um único motivo. Ela é de origem multifatorial, ou seja, devemos observar cada item descrito nos parágrafos anteriores, na tentativa de controlá-los. Esta atitude retarda muito o surgimento das mesmas. Por que retarda? Porque estudos mais recentes demonstram que o percentual de corredores que já se lesionaram pelo menos uma vez com a corrida chega próximo dos 90%. Portanto, a palavra chave para os treinamentos daqui em diante é CONTROLE. Ele é fundamental na prevenção a qualquer tipo de lesão e, principalmente, para que você possa seguir praticando sua corrida de forma contínua e saudável.
Vitor Tessuti
Professor universitário (Unitalo) e coordenador da academia do Colégio Marista Arquidiocesano. Ex-proprietário da Assessoria Esportiva High Concept. Mestre em Ciências da Reabilitação pela Faculdade de Medicina – USP. Bacharel em Esporte pela Escola de Educação Física – USP.Fonte: Jornal da Corrida
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